Enquanto trajeto

Enquanto trajeto, busco na margem da pista, cruzes simbolicamente postas depois duma transmutação imediata e fora de hora. Faço a reverência, essa que me acompanha desde menino sob o perigo de assombrações sertanejas.

Enquanto trajeto, imagino um jovem sair do mato, de repente, como boi desesperado pela fuga. Ele pardo, de 2006, de córtex mal costurado, sem a valência de um terço católico.
A colisão. O símbolo. Me reverenciarão também quando passarem por mim?

Enquanto trajeto, imagino crianças distantes. Tendo de crescer sem conhecer a paz. Que me rasguei por extrapolar nas brincadeiras e peguei doenças por rir com a boca escancarada. Mas essas sequer já cerraram os dentes ou tiveram espaço suficiente para correr com a esperança de voltar, impedidas por uma cultura que senta sobre elas: Fuja, sou eu de novo!
Uma explosão a mais, sete famílias a menos. A coluna do prédio que não suporta, a pele grossa que suporta cada vez mais.

Enquanto trajeto, observo a uniformidade da inovação. Planícies de cor unificada, uma vastidão de capim que já fora caliandra, jurubeba, carnaúba. E olho no retrovisor meu olho caído, acastanhado, a pele morena avermelhada, que já andou descalço pela caatinga, que já se pintou de carvão e barro, que já atabulou línguas guturais.

Enquanto trajeto, vou e volto, passeando por mundos que apartados, fazem parte de mim.

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