Faço malabarismo com a podridão da minha preguiça

Páginas dobradas
São meu vulto em órbita no ápice da minha crise sensorial
preciso esticar os dedos, preciso dar vazão a angústia, preciso me contorcer para deslocar os traumas entre as juntas dos ossos
ansiedade cervical, depressão na laringe, teias forrando a casa oca do coração
caminho a esmo, vadio de objetivos, mas ansiando a volta dos sentidos, vou sentindo, observo os gatos de rua, cuspo na rua, corto as linhas da rua, vomito meus medos na rua, corto meu pulso na rua
sangro até a cura parecer eminente
extravaso
quero transar inquietante selvagem sujo macabro numa noite quero ser virgem impedido eunuco mórbido na outra
continuo aprendendo pela metade línguas que não precisarei usar um dia
senão pra bancar meu orgulho de fazer cultura e assanhar a cultura e quebrar a cultura e mentir sobre a cultura e pisotear
farsante
marcante
garanto vileza
garanto o trato das frases, reescrevo, corrijo, limpo, enrijecida arte nas armaduras da métrica
e as vezes borro e espalho café propositalmente no papel branco e pego com a mão os versos no piso do intestino, faço a serpenteza de inventar palavras, degluto, amasso entre os dedos, dou formas e as desfaço
não mereço desenhar
tampouco fazer poesia
não mereço a vida circense
nem a das ruas
mesmo assim
cuspo na rua o sangue duro da margem da gengiva
corto na rua os rabiscos dos trabalhadores pobres
vomito na rua bebidas quentes mal digeridas
corto na rua minhas roupas personalizadas por mim nos momentos de suspensão do raciocínio nos momentos em que busco casa no caos da vida lá fora
ando na rua
na rua da minha cabeça
pois a vida social não me cabe
e não caibo nas linhas da rua
e os gatos me ignoram
sigo grotesco, gotejando palavras novas dentro de casa
com medo de andar na rua
e me apontarem
"foi esse que estragou nossa poesia".

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