Temperança

Não sei que cálculos usar para medir o tamanho do vazio que se estende na minha casa hoje. É perceptível que ele emana de mim. Não circulando pelo corpo como são as angústias, mas concentrado num ponto de poder, dando a sala uma luz fosca.

Minha apatia não soa como a tristeza humana, parece nascer de um instinto animal de isolamento. Para sobreviver, hiberno diariamente e quando, por inconsequência, me exponho ao risco, entro no estado de dormência que chega a ser letal. Mesmo acordado, permaneço imóvel em algum canto, observando e com pensamentos vãos pelo vento da cabeça.

Desisto das metas, busco únicamente o prazer para pagar a tortura de ser eu.

Vagal. Ando na rua enquanto fumo, incomodo a civilização. Me iludo com a voz simpática do velho dono do bar na esquina. Poderia deitar no seu colo e pedir que conversasse até eu pegar no sono. Que me chamasse para fazer parte da família, elogiasse minhas notas e fizesse questão de servir primeiramente para mim a tábua do churrasco. Crio mundos impossíveis, maldita fome infantil.

Ouço músicas em espanhol, em islandês.

Sinto eterno desejo de não ser. Sinto vergonha de existir, por simplesmente existir. Sinto-me não pertencente ao mundo dos homens. Sinto amargura por não ser mais o menino acariciado na bochecha pelas comadres de minha mãe.

O que sinto não é tristeza. Vejo até uma alegria ou outra em meus gestos, mas trafego tão esquisito pela rua, no papel de um selvagem invadindo o espaço. Admito, não me abram as portas pois tenho mesmo peçonha.

Escrevo.

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