Xerófito

Atado ao Sertão, levo pro mundo meu sol apregado a derme da nuca, a poesia ardida, germinada nesse do meio-dia.

Trazeno no meu bornal somente uma lamparina para iluminar vossa cabeça, na língua as prosas da sagrada jurema e na mão suada os versos que por onde passo pingam, são a água que minha terra precisa. Com pouco, desbravo. Horrorizado com a vileza dos homens urbanos.

Seres vestidos de plástico, horrendos de escorbuto e palidez, suas peles em conflito com a minha avermelhada. Tão estrangeiros os costumes, enxergando o mundo com olhos europeus.

De onde venho, as teorias desses não tem peso nenhum, pois nos foi ensinada a filosofia de Maria Bonita.

Que no primeiro ato diz: Largue a renda e vá viver em berços de ferro, fincando calvários no santíssimo cerrado. Então largo o cálice para beber direto do mandacaru e o altar da família para rezar a lua ninfa das noites.

Que no segundo ordena: Voe alto, tendo nos dedos ganchos de prata, no peito um medalhão de ouro e nas veias, sangue suficiente para te fazer planar.

E que no terceiro benze tuas guerras: leve consigo uma estrela na ponta do facão e com uma apunhalada de honra bote fogo nos pés de quem cruzar seu caminho.

Somos mesmo ignorantes, não quero saber dos teus escritos. Vindo d'um mar de tropicália viva, de amores arbóreos, vidas herbáceas, aprendi mirando o céu que guardadas em seu estômago, árvores se tortuam no ar como as veias do mundo e tateando o chão aprendi que raízes serpenteiam profundamente, em laço afetuoso com a hidrografia, paixões subterrâneas de águas que caminham a pé embaixo de mim.

Engatinhando tão menino na savana brasileira, não consigo te gostar civilização, é mais forte que eu, porque da caatinga, sou Xerosentimental.

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