Tônus numa terça
Não tenho peitoral maciço
Por dentro não é blindado, então permissivo aos disparos
Não tenho desenhos no abdômen, não como esculpiram os gregos
E as carnes macias
pra selar na grelha, com gordura enjoativa, mas saudável, nativo da natureza, sem poluição
Embora seja o plástico hoje o produto desejável, porque não é tão importante o sabor, mas a cara e a textura
Não confio nos atletas nem nos fisiculturistas
por ser uma ameba poética e trágica
por pensar na arte e não no músculo
por enxergar antes os pelos a silhueta
a cor da pele, o tamanho do cabelo, o calo nas mãos, sem comportamento estético, gosto mesmo de um porco inteiro assado, o diabo na brasa, os primos no corgo
"Aquele tônus (...) é ofensivo ao coração (...) tal criatura inunda minha solidão"
Sou o ermitão escrevedor das coisas que ninguém quer ler
Sarcasmo, verdade, abstração
Quando doce: pegajoso
Quando salgado: oleoso
Raramente satisfatório, de língua-de-lâmina, monstrengo, chatíssimo, um rapaz muito bonzinho criado pela avó
Do dia da morte e do rock
De signo lunar suicida e ascendente extravagante
De arcano solar
E linhas de fogo sexual numa mão de ar depressivo
Tudo e Nada, mestiço de preto, cigano e índio
Eu não sou ninguém
por ser um cadinho de todas as coisas
Terça, 23 de junho de 2026
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