Severina noite
Vamos sobrevoar o interior
às onze horas as bruxas levantam vôo
Atônitos, sertanejos temem observando
suas espingardas não ferem peles não humanas
então o círculo de horrores ao redor da lua
e a neblina pairando baixa
corujas nas copas das cercas de arame
Os cavalos dormem
as esposas levantam de madrugada, os maridos induzidos ao sono, passam um café antes de raiar o dia, enrolam cigarros, dão a borra às plantas
fumam, fumam, fumam
Logo mais um cuscuz, louças de alumínio batido na pia, o almoço amarrado em panos de prato, o entregador: um dos sete bambinos
os peões eternizados pela verniz do suor
Vá-se-embora Severina-noite
causos com a vizinha, milhos e vagens nas sacas esperando o desbulho
preto embaixo da unha, narinas sujas de rapé, saia de poliéster, blusas desbotadas com badulaques
O colo de avó
a ladainha
a santa missa
o paganismo nos hábitos
as panturrilhas de indios
nariz chato, pálpebra baixa, cabelo de mil texturas, velhas pela vida, já nascidas meninas com nome de madura-mulher
Angelina, Analdina, Firmina, Maria
Temos várias cicatrizes, mas estamos vivos
rogamos agouros e temos mistérios, mas cremos em Nossa Senhora Aparecida
agradecemos ao rio com os olhos
de manhãzinha quando lavamos roupa
de tardezinha quando as águas param
Tomo benção, beijo o rosto de mainha
matuto
caboclinho
menino
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